segunda-feira, 7 de maio de 2012

In quieto

(exercício #3 – uma situação, um período, um fragmento, ação e emoção)







Você estava mentindo pra myn.
Nada vai me fazer crer no contrario.
Você disse que era cansaço. Demorou para atender o telefone, estava silêncio, você falava como se tivesse corrido para uma janela afastada; antes de te ligar eu tive um ataque de pânico, caminhar do quarto até a cozinha foi quase impossível, as pernas tremiam, não sabia se corria sem olhar para trás ou caminhava lentamente de costas com os olhos fixos de quem precisa passar por um cachorro feroz. Da cozinha até o quarto foi pior ainda. Eu me pedia calma e apelava para meu ser superior que eu me ouvisse, esse medo não existe, esse medo não existe! (pausa)
Vou ligar pra você.
Você monossilábico e distante; falo do meu medo e sinto a pressa que a sua calma tinha. Boa noite amor, um beijo. Eu sabia exatamente os seus próximos passos: vai me ligar de novo, vai ter a voz alegre e querer falar comigo por muito tempo, contar o seu dia com detalhes, saber do meu, e vai ligar ainda uma ultima vez você estava mentindo pra mim. O que você estava mentindo pra si? 


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre a caixa e outros bichos


Eu queria me anular
ser eu mesma ao extremo 
extremo oposto dela que não se preocupa em incomodar
incomoda por querer
porque seu umbigo é o mais bonito
e não reconhece insegurança
desejo é ação realizada
voz calculada
foco e direção.


Eu sou estampa que desmancha
não sei bancar minha aflição
e ali, calada, dentro da caixa
eu afirmei minha posição
de quem olha e só se permite partir quando tem vontade.


Nesse ponto somos iguais, eu e ela
Estamos e somos
com toda potência e volúpia
pulsação
de quem é e ponto.

De quem se perde no meio do caminho
ou de quem toma consciência antes que se perca


e ainda assim, se se tornar errante
foi por escolha 
ou por atestar que não se tem o que fazer
ou que não está preparado ainda para ser diferente.












*Performance realizada no dia 17 de novembro de 2011;
*De 12:30h até 14:30h;
*Local: UNIRIO - Centro de Letras e Artes;
*Por: Michelly Barros;
*Orientação: Tania Alice,
*Referência: Grupo Meyd Inn Rio, Relações Perigosas.



(E tudo começou com a impossível tarefa de separar a razão da emoção.)

domingo, 6 de novembro de 2011

A verdade

Não posso amor, dizer que te amo
Se o digo, não acredite
Do amor que sinto
Só será possível dizê-lo depois do fim

Morre alguma coisa toda vez que a fala sai
O próprio amor é que se afasta
Fica ausente atrás das palavras

Mas se eu te chamo amor, acredite
Porque o chamado é no presente
E seja lá quando for
Meu amor pertence ao sempre
Sem começo
Sem fim

sábado, 24 de setembro de 2011

A Coisa

Sinal verde constante
Avante
Vermelho com amarelo só aumenta a fome
Atenção
Abro os olhos numa manhã sem precedentes
Na hora exata da ação inventada
Tudo é reação em relação
Ao que não volta nem com o Vento
Um senhor barbudo, meio sujo, meio bicho, meio gente
Gentileza
Dizem que Deus protege os loucos, as crianças e os bêbados
E eu que não descobri ainda o que é ser o contrário disso
Que não me privo de mim
Refém de um absurdo cego e mudo
Digo amém – com e sem acento
No fundo dá no mesmo
Porque no fundo da sala que eu sentei
Eu pude observar melhor as pessoas
Ver seus egos dançando sem se tocarem
Assim como o meu
Mas numa distância mal calculada, misturada
Nunca sei onde eu termino e onde começa o outro
É preciso ter noção de espaço
E todos os pensamentos mudam
Quando o que sinto é o vazio de dentro
Você estava ali, dentro
E quem vai dizer que é impossível dois corpos ocuparem o mesmo lugar
Ao mesmo tempo
Você estava ali
Aqui
Dentro
E então eu me levanto do fundo da sala
Tremendo de medo
Ouso abrir a boca
Balbuciar qualquer coisa rouca depois de muito tempo calada
Quem vocês pensam que são?
Silêncio.
Minha voz fraca ficou forte, coragem
Repito: Quem vocês pensam que são?
A coisa mais bonita é a coisa mais bonita
Coisa, pra sempre coisa
E não me obriguem a achar uma definição
Tem um buraco em mim
Entra!
Quisera eu poder te fazer uma fenda e descansar por lá
Entrar
E sentir o avesso da tua pele
Te fazendo doer por dentro a dor dos que precisam de afeto
Você nunca saberá o que é ter uma boceta, um útero
E eu nunca saberei o que é ter um pau pra sentir tudo isso,
A boca do mundo
Definitivamente, não somos iguais
É básico, é claro
Tudo afasta, tudo aproxima
Tudo é
Tu-do-é
Quando enfio a minha cabeça no teu peito e aperto forte o nosso abraço
É porque eu quero ser como você,
Quero entrar em você assim como você consegue entrar em mim
E consigo, consigo mesmo
E então o que faz as minhas pernas se abrirem é o teu sorriso
A tua boca vermelha, a tua língua
Que mesmo anestesiada, não me nega o último beijo
E eu digo vem
Vem!
É mais que pernas, mais que pelos, mais que músculos
Mais que pau e boceta
É o contrário da pressa
O contrário do medo
O contrário da vergonha
O contrário do vazio
É cheio
É a coisa
Essa coisa que quando respira é o universo inteiro
Porque os egos descansam,
Cessam a dança
A magia do silêncio se refaz
A impossibilidade
O ser por inteiro
A pausa
A paz
E a dor que se sente é a dor da poesia
Da organização, do significado encontrado
A dor da arte
A dor da beleza
E o espelho no teto anuncia
Está pronta a obra
Encontrem os encaixes
Encaixem-se!
E a dor nunca mais será ataque como escudo
A dor será amor
A rima que nunca se perderá no tempo
A reação de quem traz o peito aberto
Para ouvir a música mais bela
Todas elas
A música do mundo
Agora sim:
Dança comigo?
Danço contigo
Estamos juntos.


Sim, a coisa é confusa.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Qual a cor da sua felicidade?

I Seminário Internacional do Corpo Cênico 
 UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro


Performance realizada por Michelly Barros e Priscilla Credie
12/09/2011
Coordenação: Tania Alice

QUAL A COR DA SUA FELICIDADE?

Foto: Michelly Barros
-Pinte a sua felicidade.
-É pra pintar o que eu quiser onde eu quiser?
-Fique à vontade.

Foto: Tania Alice
-Qual a cor da minha felicidade? Eu não sei. Mas vou ser feliz pintando!

Foto: Gabriel Carneiro

O início, a forma - um coração aqui, uma palavra ali... contenção. "Eu espero que isso saia com água..."
Foto: Gabriel Carneiro

Teve gente que não quis se sujar e ficou de fora observando. Mas não era obrigatório se sujar... E eu pergunto: E aí? O que você está fazendo com a sua felicidade?

Foto: Gabriel Carneiro

Teve gente que voltou depois... "Ah, eu quero ser feliz!"

Foto: Gabriel Carneiro

Alguém comenta: "Quanta liberdade!"
Felicidade = Liberdade?

Foto: Henrique Escobar


Foto: Gabriel Carneiro

Vão-se, então, as formas - Corpo, tecido, pincéis, canetas, tintas... Azul, amarelo, laranja, verde, roxo, preto, branco, azul claro, verde escuro, vermelho, Michelly, Priscilla... 
E o infinito é cinza.

Foto: Gabriel Carneiro

Abraço grátis: Porque perder a piada é se perder da vida.


Foto: Gabriel Carneiro
-Sim, sai com água.



Postagem disponível também no blog PERFORMANCE & RE-ENACTMENT.

Mais fotos


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ruídos

Cena do curta Balada das Duas Mocinhas de Botafogo


Balada das Duas Mocinhas de Botafogo 
Um filme de Fernando Valle e João Caetano Feyer
Com Guta Stresser e Fernanda Boechat
(2006)

"Botafogo, bairro carioca dos casarões antigos, das colegiais em flor... do cemitério. Duas irmãs só como Vinicius de Morais viu."


Clique para assistir ao filme (14 min)


Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
Enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmem de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!

Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando achavam-se sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos...
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.

Foi só um grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda parte o sangue
De Marília e de Marina.


Vinicius de Morais

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Diz pra mim


"Felicidade é só questão de ser" "Acho que estou pedindo uma coisa normal, felicidade é um bem natural" "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente" " Happiness is a warm gun" "Don't worry, be happy" "Felicidade, eu que quero andar na vida namorando você" "Sou feliz, por isso estou aqui" "A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor... A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar" "Não existe um caminho pra felicidade, a felicidade é o caminho" "Esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade" 
?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cor-Ação



Depois da pergunta, a resposta
Depois da resposta, o alívio
Depois do alívio, o sono tranqüilo
Depois do sono, a manhã cinza
bonita
mas o peito doendo...
Lateja alguma coisa por fora
Alguma coisa pro dentro
O bico esquerdo está dolorido, duro
Como  leite empedrado de uma mãe que não gerou nenhum filho
Efeito da decisão
Você indo embora pela porta que chegou:
o coração.