Domingo, 12 de Julho de 2009

Vem comigo

Eu não quero mais pensar que a errada sou eu
Não quero dizer uma coisa e achar que não deveria ter dito
Fazer uma escolha e duvidar dela
Decidi acreditar que quem brinca com a sorte é aquele que desaparece
Assisto-me há quase duas décadas e digo certa de olhos abertos
Que é boa a vida que eu levo
Meu show não se compra com dificuldade
Minha experiência não é pouca
E afeto é só o que eu peço
Sinceridade como exigência de ambas as partes
Mas reconheço a impossibilidade
Muitas são as pessoas que têm olhos e não usam
Têm ouvidos e não escutam
Feliz de mim
Ai de mim
Que vivo assim
Que tenho vez
Que não tenho vez
Mas a sorte está lançada
E a minha paz é real
Quisera eu poder ensinar que o amor em tudo o que se faz é fundamental
O meio que justifica todos os fins

Vem comigo.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Estrada amarela

Eu não vou mais falar de você com ninguém
Não vou esperar a sua hora de entrar para entrar também
Eu não quero seguir passos desacompanhados
Eu não quero dormir e acordar no vazio dos meus próprios braços
Eu quero a meia-hora do beijo
Quero mostrar que a falta do tempo só se faz pra quem não se quer
Quero realizar, não quero imaginar
Não quero dormir e nem acordar
Quero porque te quero
Não quero por tanto te querer
Estou muito cansada
Minha alma não é nova
Por isso leva vida de criança
Conhece o livro e reconhece o bom de estar de volta
Encontra a paz no sorriso da loira bonita
E no olhar esverdeado daquele rapaz
Acredita na força do acaso
E diz sim pra tudo o que é encontro
Bebe na fonte da liberdade
E consegue ver todo o valor
Do presente ausente ou penitente
Ela sempre entende mesmo impaciente
Ela sabe o que quer e me ensina
E eu que não sou boba
Nem mulher nem menina
Nem orgulho nem sabedoria
Empresto os meus olhos por um caminho
Entrego o meu coração aberto
Fecho as portas do desespero
E confio
Eu realmente confio
Sigo de bem comigo

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

De fora

Não sei mais escrever uma linha sequer de poesia.
Tudo o que sai é tão bobo quanto o cara que acorda, toma banho, vai pro trabalho, toma um café e cumpre o dia, volta pra casa, janta na frente da televisão e dorme e acorda, toma banho e faz tudo de novo.
Não sou poeta, sou uma oportunista de ocasião.
Antes tudo era motivo, hoje eu vivo.
Mas fora do papel não me sinto.
O tempo foi passando e tudo mudando, eu inclusive, mas o que me prendia ainda permanece.
Não falo daqueles por quem esperei e não vieram,
Falo de quem nunca apareceu de verdade.
Arrisco um novo palpite
Mesmo medroso
E desejo até sem saber
A verdade é que eu não sei
Mas sigo quem nunca me faltou, a não ser naquela vez em que o conto se desfez:
A intuição.
Enquanto isso sigo a minha mais antiga companhia:
A lucidez.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Deixa pra lá

Eu ia, não vou mais
Escrever pra você aquela carta
Falar de como eu me sinto
Quanto te quero
Não faz sentido
Em mim ficaram as digitais
Não dos teus braços
Cheguei a sentir meu corpo molhado
Da saliva que você trazia fresca no tato
Gosto dela
Toque dela
Antes você
Quem me dera, sem ela

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Doce lamento

Quem nos dera a volta da inocência
O olhar curioso em vez do medroso
O sim apesar do talvez
Era mais fácil sorrir
Era mais simples se encantar
O sentido era sentir
A gente se completava sem palavras

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Brincadeira de criança

Não, eu não perdi a noção
Sabia exatamente que jogo era aquele e o seu ponto de chegada
Gosto de te ter na minha mão
É verdade que parte de mim recusava e ainda recusa
Dizendo que manipular é roubar
Mas o animal quando sente que pode ganhar
Não se importa em burlar
Fui animal naquela noite em que o frio escondia a máscara
Disse coisas que não teria dito se fosse somente humana
É que o animal chama e eu não o consigo calar quando é a minha vez de jogar
Pelos meus olhos podia-se sentir o cheiro do prazer de te ter um brinquedo
Voltar a ser criança é bom depois de tanto tempo sem quebrar nada
Porque nem quando era permitido eu o fazia
Tudo meu sempre foi inteiro
Mas agora a menina está de volta
No relógio que roda ao contrário
E nesses ponteiros ela se delicia
Arrancando parte por parte do boneco programado
Naquele tempo em que pela primeira vez chorou
E sabendo que braços e pernas são fáceis de retirar
Enfiou as mãos no coração e puxou

Sábado, 23 de Maio de 2009

Jogo da vida

Ela disse que o deixava em casa, era perto dali. Saíram.

- Por que você pegou esse canto? O da esquerda sempre anda mais rápido. – Disse ele.
- É? – fraco e triste, disse a menina.

Ela sabia que a pista da direita era a mais lenta, afinal aquele era o seu caminho de todos os dias.



O rapaz não foi capaz de notar que tudo o que ela queria era estar com ele por mais tempo.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

De corpo inteiro - entrevista póstuma por Clarice Lispector

MICHELLY BARROS
“uma mulher lúcida e apaixonada”
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Você viveu ainda tão pouco que talvez seja prematuro perguntar-lhe se você teve algum momento decisivo na vida e qual foi.
Realmente acho que nunca passei por um grande momento de decisão, porque quando se fala desse jeito, penso logo num marco, em algo que te muda completamente de direção. Eu acredito que toda vida, seja ela curta ou não, é feita de escolhas, e essas são diárias, e pra cada opção de caminho, outras inúmeras opções se abrem e a partir daí novas escolhas. O tempo todo temos que decidir sobre alguma pequena coisa, e esses pequenos momentos vão moldando a nova vida.
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Qual foi a sua maior alegria na vida?
O meu afilhado Breno.
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Que papel gostaria de representar no palco?
Tenho profunda admiração pelas personagens marginais.
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Dos personagens que você encarnou no palco, qual é o seu preferido, o que mais se assemelha a sua própria alma?
A Lívia do Jorge Amado, uma mulher lúcida e apaixonada. Ela é só coração, faz tudo por amor, e quando o mundo desaba, ela cai junto, mas recolhe seus caquinhos e volta mais forte do que antes, do que todos.
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O que é angústia?
É quando me sinto presa em algum lugar do qual não consigo me libertar.
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Escrever melhora a angústia de viver?
Sim, escrever é uma saída. Alivia.
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Como foi que você começou a escrever?
Eu sempre escrevi, é dessa forma que me organizo e entendo melhor as coisas.
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Qual dos seus textos você mais gosta?
De todos que eu publico, sempre acho que tem alguma coisa importante ali que merece ser compartilhada.
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Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritora e criadora?
Não me considero uma escritora no sentido profissional da palavra, eu escrevo por necessidade.
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Michelly, qual o seu clube de futebol?
Flamengo. E o seu?
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Botafogo.
Ah, Clarice, fala sério, né?
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Pois é, o q se há de fazer.
Fique feliz em saber que você gosta de futebol pelo menos, porque eu sou completamente viciada, adoro!
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Rimos.
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Você se cansa da repetição diária da mesma peça, ou considera cada noite uma nova experiência por ter público diferente todas as noites?
Antes de ficar em cartaz por mais de 2 meses com uma mesma peça eu me perguntava se isso aconteceria, porque realmente parece cansativo, mas isso não acontece, é sempre uma renovação de energia e tudo parece que está sendo feito pela primeira vez.
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Qual é a coisa mais importante do mundo?
O amor.
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Qual a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?
Saber ser leal e gentil, não só com os outros, consigo mesmo também.
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O que é o amor?
Não sei definir, mas sinto. Como eu disse, é a coisa mais importante do mundo.
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Eu também não sei definir. Você já sofreu por amor?
Muito até.
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Você alguma vez sentiu vontade de apelar profundamente a Deus?
Sim, algumas vezes.
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O que você mais deseja no mundo?
A minha realização profissional e amar e ser amada.

Domingo, 17 de Maio de 2009

A Filha da Lua

A minha poesia não é um poema
Ela segue a liberdade da cadência dos meus passos
Não busco hoje o teu amor refeito em versos
Fico com a busca do nosso silêncio
Talvez o conto de fadas se refaça
Acho que está acontecendo
Você não me esqueceu e eu não fiquei te devendo
Mas se quiser, cobre-me o que te pertence
É claro que você sabe
Os elogios foram largados
Infindados
Encerro-me em surpresas para ti
Reconhecerás o meu canto em todos os lugares
Não se preocupa com o caminho
Meus olhos vão te guiar
Tome cuidado, touro
Carneiro não é nada frágil
Todos sabem
E a tua força vai descarregar
Por enquanto tens para quem voltar
Não te desejo o fim daqueles dois ou três
Mas a mulher tem poder
Ela dança transformando adultos em crianças
Se ela quer é melhor dar
Agarra a tua sorte
Para teres pelo menos com quem chorar
Uma vez, duas
Na terceira ela já não está
Não são 25 de dezembro
Mas as Marias vão se alinhar
É março, são 28
Ela vai chegar
Filha da Lua
Afilhada primeira do Sol
Diz logo qual é a tua
Os Reis estão chegando para presenteá-la
É tempo de renovação
Vai, bicho manso
Por onde andam teus olhos?
Não enxergas mais o vermelho que ela veste?
A cor ainda é a mesma
E o som das pulseiras nos chama
Vamos lá ver a moça que dança
Jogue uma moeda
Faça um pedido
E canta
Com ela estarás a salvo
Esquece aquela idéia de que viver junto é revertério
Um sempre será pouco
És um touro ou um burro?
Você não é loiro e ela tampouco tem olhos verdes
Mas o castelo é real
O conto já foi escrito
Vire a página se quiser saber o final
Vai agora, moço estranho
Dê a ela uma resposta
Vem agora, menino malcriado
Um, dois, três
E já.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Paraíso perdido

Uns dirão que eu enlouqueci, outros vão fazer perguntas das quais ninguém saberá ao certo as respostas. Especulação é o que não vai faltar. Enquanto isso sigo o rastro do meu próprio rabo. Quisera ser a personagem de uma epopéia, onde a vida se completava com a própria vida, mas nasci com a formação de um herói romanesco onde a tendência à melancolia se transformou no vício incontrolável da busca do sentido perdido. É como ter vivido no paraíso e de uma hora para outra provar do fruto que, sem nenhum aviso, era proibido. Bem que o anjo me disse que isso ia acontecer, mas não dei ouvidos, achei que já podia caminhar sozinha, mas nada posso dentro de uma casa vazia...

Aqui

Mais uma vez aqui
Por mais que eu ande
Que eu mude
Que eu simule
Sempre acabo aqui
O aqui me assombra
E por aqui eu fico
Por tédio
Pela dor
Pela dependência
Ou simplesmente por amor
Não sei
O aqui me prende

Lamparina

vira
troca de lugar
revira
verdades antigas
mentira!
agora duvida
mas reza
sem rosto
perdida
única certeza
a luz vermelha
há uma saída
sabe-se que não é a rima
pelo menos essa se domina
tudo permanece
ela passa
transformando-se sem querer
sem saber não se acha
não se fala de erros nem acertos
passarinho é livre porque não sabe disso
se a melhor coisa para o homem era não ter nascido
se a segunda melhor coisa é morrer o mais rápido possível
deixa-se quimar ao som do tambor novamente
um gato não poderia ter mais vidas
o mundo é pesado, menina
toma cuidado
não banaliza a escrita
grita
os tempos não mudaram
repetir-se é permitido
ficar é que é impossível

O que você não viu

Quando as cortinas se abriram você não estava lá. Podia-se ver a sua poltrona vazia preenchendo-me de nada. Você se foi e nem deu tempo de ouvir a música dos meus pés.A sua calça jeans ainda está pendurada atrás da porta, a bancada do banheiro ainda tem as marcas do teu cigarro que um dia queimou ali. No bar da sala ainda tem o teu copo, e é engraçado olhar para ele hoje, pois o que irritava arranca-me o doce sorriso salgado pelas lágrimas. Respiro fundo e corro para o banheiro antes que alguém note.Eu também não tive tempo de te contar que os meus versos virarão um livro. Você teria orgulho disso.Você também não estava aqui para ver a minha escola ser campeã depois de quinze anos, você não viu o meu sorriso.A casa da praia dessa vez estava cheia de marimbondos porque não tinha ninguém para matá-los e se divertir com isso. Os mosquitos ganharam uma nova inimiga, a raquete eletrificada. Sei que esse objeto em suas mãos daria enorme prazer... pude te ver pela casa brincando de infernizar os pequenos seres.Você também não vai me ver vestida de madrinha no casamento da pequena. E nem vai poder tirar fotos do seu celular que hoje pertence à moça descuidada que deixou uma amiga apagar o seu ponto de vista pelo mundo. Choro ao ver aquele aparelho nas mãos dela também.O passarinho passou a cantar somente Piazzola, mas depois de passar uns dias com o moço parecido com você, pude até ouvir um samba. Bom para ele, bom para mim, pois já não sabia como cuidar daquela tristeza .Todos dizem que o tempo cura tudo, mas nesse caso é diferente, pois a dor aumenta a cada página virada do calendário. E todos os dias as lágrimas me visitam...

Descoberta

Eu tenho um medo.E ele é tão bonito que fico emocionada só de lembrar, porque mesmo estando sempre comigo, ele não é daquele tipo que se faz presente em todos os lugares. A sua ação é sutil e não me paralisa, cócegas é o que ele me faz. Passei um tempo culpando-me por criá-lo, mas hoje agradeço pela descoberta do seu foco. Quando olhei no fundo dos seus olhos vi um menino de 10 anos de idade encantado com o balé das pipas no céu. Soltar pipa é o que ele mais gosta de fazer na vida.Entendi tudo.

Autodestruição

Hoje eu quero acabar comigo
Seja pelo tédio ou pelo vício
Quero acabar com o desperdício
Amor pingado quase implorado
Tesouro virando coisa nenhuma
Hoje eu quero acabar contigo
Invejar tudo o que tens
Tuas certezas, teus princípios
Teus amigos e teus amores
Tua casa, teus vizinhos
Tua cerveja e os teus versos
Pelo prazer da destruição
Eu quero ver é o circo pegar fogo
Ouvir o berro abafado de fumaça da bailarina
Eu quero tudo cinza
Mais que o teu sangue
Mais que a tua morte
Desejo a tua vida
Só para ter o prazer de destruí-la
Minha sede é demais
Minhas metáforas hoje são de menos
Já chega das meias palavras e das gentilezas
Da criação imbecil que não dá mais certo
Da sensibilidade e da sublimidade
Chega de tentar unir o impossível
Eu tenho pressa, odeio a perfeição
Eu quero a tua carne, cuspir na tua alma
Olhar os teus olhos de piedade
Santidade
E beijar a tua boca como se fosse a única
E de repente, não mais que de repente
Rir do teu pranto

Hoje eu quero acabar com tudo
Só por prazer

2'58''

De calcinha e camiseta, cambaleio pelo quarto. Como uma bêbada, do meu sorriso me embriago. É como andar na chuva sem proteção e não se molhar, é caminhar entre a Palestina e o Iraque temendo a guerra, mas sem medo de ser atingida. É não ser imortal, é ser consciente disso. É orgulhar-se do sabor que sente pelo biscoito doce todas as manhãs ou pela maça não mordida, é tragar o ar e ter prazer na garganta seca.Colecionando roxos pelas pernas, derrubando gavetas, lascando pontas de mesas, entre um verso e outro daquela música que me diz tudo o que não sou, sigo com a mais profunda alegria por ser uma fingida. Ninguém vai saber de nada, porque eu sei e isso basta. Felicidade é revelar-me a mim, conhecer o mistério dos céus e dos deuses, é poder tocá-los e não apenas senti-los, na mesma dimensão.

A visita

Batem à porta. E abrindo a moça pergunta:

- Quem é?
- Não me reconheces mais?
- Não sei tem algo que me é familiar, mas não consigo lembrar... não! Não pode ser. Como você pode estar de volta?
- Isso deve ser muito confuso para a sua cabecinha realmente, mas sou eu mesmo.
- Como pode estar presente naquela época e nesta ao mesmo tempo?
- Veja bem, não estou lá, estou aqui.
- O que você quer de mim?
- A principio te lembrar que não podes me abandonar
- Mas eu não escolhi te deixar
- Não se preocupe, eu sei que é da minha natureza ficar para trás, e que é da natureza humana caminhar para frente.
- Mas quero que saiba que nunca escolhi te esquecer. Não pensar em você talvez fosse uma saída para a dor que eu sentia, e foi. Só que nem assim eu consegui te apagar, você sempre viveu no vai e vem da minha memória.
- Comover-me-ia se pudesse me dar ao luxo de sentir alguma coisa, mas deixo as lágrimas só para a senhora.
- Por favor, por que está de volta?
- Também estou aqui para descobrir.
- Como assim? Não tem a resposta?
- Só a senhora tem a resposta.
- Eu?
- Não se esqueça que eu sou apenas uma parte da sua vida.
- Você veio para ficar?
- Eu voltei agora, e esse agora pode sim demorar.
- E a quem devo cobrar? Não vê que me dói te encontrar?
- Já te disse que não sei, talvez algo tenha ficado pendente comigo.
- Jura que não sabe?
- Eu te adoro, faria tudo pra não te ver nessa agonia, mas essa vida não é minha.
- De qualquer forma é bom te ter por perto, mas tenho medo dessa, nem sei como chamar... estranha alegria.
- Eu prometo que só vou te machucar o necessário.
- Mas eu já sofri tanto com essa história...
- Nós sabemos, mas a dor não vai ser nova. Fica tranqüila, afinal, tudo o está em mim a senhora reconhece.
- Acho que começo a entender. É como quando a gente sai e deixa a porta aberta...
- ...E uma hora é preciso voltar para fechá-la.
- Ou não, talvez tenha sido de propósito, para outro entrar.
- Tudo é possível, mas os buracos que trago, como a senhora mesmo disse, foram blindados contra o esquecimento.
- E eu mesma os blindei...
- É, a senhora entendeu.
- E são grandes?
- Alguns.
- Quantos?
- Só a senhora para saber.
- Devem ser muitos...
- A senhora respira com dificuldade.
- Faz tempo que não vivo em paz.
- Por quê?
- Não sei, talvez eu soubesse que você chegaria.
- Então a senhora me chamou.
- Não sei se tenho esse poder.
- Querida, entenda, basta desejar.
- Acho que ainda não estou preparada.
- Mas se você me trouxe de volta, saberá o que fazer.
- Posso te pedir um favor?
- Qualquer um.
- Só parta quando estiver tudo resolvido.
- Vou partir quando a senhora quiser.
- Obrigada. Por favor, sente-se. Vou te trazer uma caneca de chá.
- Chá? Como a senhora está mudada.
- Sim, mas ainda há a coca bem gelada!
- Serei o que quiseres que eu seja.
- Levante-se, venha, temos muito que conversar. Fique comigo o tempo todo, até eu decidir se bebo coca ou chá.
- Nós vamos nos achar.

E os dois saíram de braços dados, a moça e o seu passado.

Arianos

Eu não vi você nascer, muito menos me viste crescer. Mas de tudo o que eu existo você é o mais parecido. Eu até tinha que está dormindo, mas com as luzes apagadas, nessa madrugada do teu dia, brindo contigo a nossa alegria muitas vezes incompreendida.
Tudo que me deixaste foi poesia. Economizaste versos meus com a tua filosofia. Escrevo porque sei que dessa forma estás me ouvindo, e tem que ser agora, tudo de uma vez, ou então nunca mais.
Do mar à lua, exagero em cada passo dado, vivo aprisionada, mas sou livre para ser o que eu quiser, e estou sendo nesse momento e em todas as vezes que te ouço me escrevendo.
Esse mundo-puteiro me sufoca e quase perco de vez a voz, mas há o coração ainda batendo, há a madrugada e um copo com vodka. Há a nossa corte agradecendo pela cara da morte que eu represento, viva.
Hoje sou bossa nova, mas teu rock me trás de volta, assim é o nosso show.
Leve-me para qualquer lado, preciso estar acompanhada, por mais que a minha-nossa vocação seja a solidão, mas a dois tudo fica mais fácil. Vê, também, se deixa para mim um trago do teu cigarro, porque a vida é bela e cruel quando despida, mas fica tranqüilo, não preciso de explicações no caminho, sou tua mulher com razão. E eu entendo bem o porquê da gente ser assim. Cuide-me com uma flor, o seu bebê, pois só as mães são felizes.
Eu te inventei, fiz dos teus restos meu interesse. E aos que não compreendem a beleza de proteger um nome por amor, peço piedade ao Senhor, pois a Lua não é somente bela do Arpoador, ela brilha até mesmo por de trás das nuvens que vejo da janela onde o bom e o sucesso se unem.
Na minha cabeça toca free again, essa é a boa nova. Vamos à luta, o dia há de nascer feliz, até porque a noite nunca tem fim.
O nosso dedo já foi furado e o pacto para sempre selado. Áries está em festa.

Mais uma dose, por favor

Ela estava latente, sentia correr no seu sangue uma vontade arrebatadora.
- Mais uma dose, por favor.
E a vontade era incontrolável, ela não estava conseguindo se controlar.
- Obrigada.
A sua alma não podia mais esperar. Ela estava ofegante, podia-se ouvir o som da sua respiração. Sua pele ia e vinha por cima do coração fazendo soar por todo o seu corpo o desejo que a cada pensamento, digo, na velocidade do pensamento, aumentava e aumentava e aumentava, e ela já não podia esperar, e vai acontecer, está acontecendo, está vindo...
Ela agora gargalhava!

Inevitável retrospectiva

Aprendi que para seguir em frente não basta um caminho quando ainda restam portas abertas no passado. Saber voltar ao inacabado é uma dádiva e perdoar a si mesmo é fundamento. Nenhum ser humanos está preso no tempo e nem no espaço, o mundo dos fenômenos foi uma criação que deu certo. Será mesmo que deu? No início eu acreditava nos deuses olímpicos e coloria a minha vida de tragédia e tecidos nobres. E então, pela primeira vez, descobri que se eu inventei tudo aquilo, poderia inventar outras coisas. Mas que coisas? "Quem sou eu?" - perguntava-me. Nasci do inferno e lá estava outra vez. Desacreditei de tudo o que era sagrado e achei possível aplicar uma regra ao diverso. Eu roubei e até matei por poder justificando meus atos como a vontade de Deus. Para falar a verdade, já não acreditava mais Nele.Mas o tempo passou e outra chance me foi concedida. Abri os olhos numa manhã qualquer e num ato desesperado perguntei-me o porque de tanta solidão, pois nesse momento tudo o que eu tinha podia ser consertado por assistência técnica, até eu mesma. Uma parte de mim chorava e a outra sorria pela dor. Percebi que não era de todo uma máquina. Eu agradeci.Cheguei a pensar que a minha vida foi uma perda de tempo, mas quando se é humano não perdemos coisa nenhuma. Notei que esses mundos são paralelos, pois se ainda resta alguma sensação temporal em mim, com certeza é diferente das horas, dos dias, das semanas, dos meses e dos anos. Não há perda de tempo quando se está fora do tempo.O que busco hoje é invisível, foi-me dado o terceiro milênio e a autorização para ser EU. Até mesmo do inferno de onde vim, por certo, jamais voltarei. A dor de ainda não ser o que eu quero é inevitável - ah, mas que tola, é claro que eu sou tudo o que quero! Não há dor quando se aprende que a realidade que vai além da criação é o amor. Não se aprende a amar, pois o amor é anterior a todas as coisas, é como a música ditirambica, pura essência. O que aprendi e ainda estou aprendendo é sobre os vícios, sobre o que cristalizei como sendo meu (e não deixa de ser), mas que não passa de um degrau furado que prende o meu pé nessa escada que chamo de evolução. Princípios? Perdi quase todos. Mas não foi fácil (não é fácil). Enfrentar-se é a mais dura das batalhas. E declarar guerra a si mesmo é o ato mais corajoso que conheço.É o meu corpo morto que coloco em cima dos buracos, é nele que eu piso e não caio. Ele que morreu por amor, eu que venci, também, por amor. Subo, então, mais um degrau.

DescobrINDO

Existe um sentimento que é da ordem do antes, é como se fosse um pré-sentimento. É o que não se reconhece ainda, ou melhor dizendo, jamais se reconhecerá como palavra, ele é não-sendo em si mesmo. Passei muito tempo chamando isso de confusão - pra falar a verdade, a vida inteira. Mas eis que hoje é como se um segredo oculto se revelasse pra mim, não que eu o entenda mais do que antes, mas deixou de ser um problema. É possível sentir o que não se sente ainda, sim, é possível! É tão concreto esse não-sentir-sentindo. É o que vem antes do amor, é algo da ordem do afeto, mas é pré. Pré-beijo, pré-o-que-vem-depois. E o que vem depois também será indizível, será tão pré quanto o pré-passado. Quase posso afirmar que viver é uma sucessão de prés. Pré-sucessão. Quase posso porque não é uma coisa formada. É sendo. Mas é um lugar. Respiro melhor.

Trenzinho caipira

Boca aberta, olhos fechado. A expressão era de dor, mas havia o prazer de ter tudo o que queria. Sabia que estar ali sentenciava o que antes não cabia em métricas ou rimas. Um sorriso salgado era tudo o que tinha e escondia. Pelo caminho relógios e anéis, na cama uma vez aqueles pés que tão de longe se tornaram importante. Como quem tropeça em si mesmo, hoje é a cicatriz do que foi flor, hoje é plástico mas o cheiro da morte surge doce como quando enterrou sua avó. Traz consigo o cinza da tampa da tumba preciosa e o amarelo das rosas que aos poucos se confundiam com a terra marrom lentamente jogada sobre o dourado do caixão. Aos seus pés só restou a cera da vela comida pela chama. A boca continua aberta pela sede do vento que lhe falta, o ar parecia uma gigante pedra de gelo. Que difícil era respirar e sentir.

Paradoxo

Eu sou o telhado de ardósia que aquece as casas nas noites de frio
Eu sou o sol do meio-dia
Eu sou o tiro acelerado da artilharia para impedir o avanço do inimigo
Eu sou a lava vulcânica, sou um vulcão em erupção
Eu sou o salto mais alto
Eu sou o som das palmas no Maracanã
Eu sou as ondas do mar em dia de tempestade
Eu sou o que tem força, valente, robusto, corpulento,
Rijo, sólido, poderoso,
Possante, consistente, muito alcoólico,
Substancioso, energético e animoso.

Mas a argila se desmancha
Meio-dia, às vezes, está nublado
O rifle fica sem munição
O fogo mata
O impulso passa a não ter valor
O Flamengo perde
O ar se esgota
O eu fica fraco, débil, quebradiço,
Delicado, insignificante, sem vigor
Leviano, mole e frouxo,
Sujeito a sucumbir às tentações
Efêmero,
Transitório.

Eu sou o contra-senso, a contradição, o que não se encaixa,
Disparate, tolice,
Despautério,
Paradoxo.